DESVIO: La Loba – Broken Ink Bernini / Tatiana Jimenes
La Loba é uma obra em acrílico sobre tela, realizada em colab com a Tati, inspiradas pelo livro “Mulheres que correm com os lobos”. O sentimento que estávamos transbordando se materializou nessa obra.
Nossa força vem da união de cada uma, entendendo que cada um tem sua luta, mas vamos mudar o mundo? Sim, provavelmente. E esse quadro fala sobre a pausa entre duas realidades, enquanto eu e a pessoa que mais amo e admiro paramos tudo para criar isso. E naquele momento naquela alegria, nada mais importava.
Criar é um ato sublime, e pude compartilhar isso com a pessoa que me inspira todos os dias. Pude ver a arte desdobrando a essência. Aqueles olhares que dávamos maravilhadas com o que estávamos criando. Isso é arte.
Enquanto estávamos em um deserto, sozinhas, com medo da morte das pessoas que mais amamos, sem perspectivas, sem casa, amigos, em depressão, na escuridão… a morte de Lela Lavich, amiga/irmã, mulher transgênero, em 11 de junho de 2023, TRANSFORMOU NOSSA REALIDADE. Tanto de Broken, meu irmão, Love, minha mãe, Luciana, minha família.
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O Orgulho e resistência de Lela viverá para sempre em nós. Todos os dias é uma luta para quem é LGBTQIA+.
Sair da minha zona de conforto, não tem volta. não tem como não sentir a dor, a injustiça, a ira, a saudade... É preciso fazer orgulho, resistir, persistir, sair do armário, nos protegermos, falar uma linguagem de inclusão.
Criamos um clube de leitura e descobrimos o poder que temos juntas, unidas. Começamos a nos curar, a nos identificarmos, a nos conhecermos, a nos perdoarmos, uma espécie de alquimia. Primeiro veio o isolamento em que em um momento de muito medo, dor, injustiças, depressão, temor que fosse perder para sempre minha família, casa, que nunca mais teria Love. Proferi versos baseados na primeira canção de Broken para Love, criada no natal de 2021, (era só uma canção de presente de amigo secreto). Esses versos, palavras, encaixaram-se na canção de Broken, mas não de imediato. Era praticamente uma conjuração: Love, oooo love, eu também te love (10x) (aos prantos), em seguida, eu disse: Love, todos pegamos caminhos que parecem não ter fim, Love, pegue um desvio e chegue até a mim…. vá para a rota DESVIO 22: LOVE (aqui no blog).
Usamos a voz da alma, cantamos, meditamos, rezamos, escrevemos, pintamos quadros e paredes, tocamos instrumentos, registramos, dançamos, tatuamos, estudamos. A Tatiana está agora escrevendo, não como seus dedos loucos escrevem, mas ela está aqui, com o anseio de contar, cantar, gritar, resistindo e persistindo com muito orgulho e resistência, lembrar…. lembrar de amigues que se foram, lembrarmos de reconhecer a nossa imensa força selvagem, lembrar que somos o que cantamos ao som da vibração que ecoamos….
Eu não sabia o que fazer, logo, eu me aventurei, cantei, aprendi a tocar instrumentos musicais e comecei a escrever, cantarolar, porque precisava “sussurrar a verdade e o poder de cada um, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração.” Tudo que mais amo estava desaparecendo. E juntas, acordamos, veio a raiva coletiva. Mais uma mulher transexual morreu, a discriminação contra o ser humano pelos seus corpos, pela sua identidade de gênero, está nos eliminando e nos assombrando mais e mais.
Sobreviver a realidade como desviantes a-sistemas brasileiros exige que falemos, gritemos abertamente em nossa defesa, em defesa do grupo social a que pertençemos, em defesa da nossa comunidade LGBTQIAPN+, tentar dar voz a diferentes histórias silenciadas, que são a nossa história.
O ódio assola a todos. Ninguém está a salvo. Como animais, fomos e somos acuados, machucados, humilhados dentro de nossas casas, escola, igrejas, mercados, universidades, em qualquer rua, local, cidade. Somos e vivemos assustados. Principalmente à noite, sozinhos.
Persistimos porque existimos, temos esse direito.
Nossa resistência nos dá voz, nos faz lutar pela nossa existência. Encarar a injustiça é nossa luta.
Tive que me entregar ao sentimento, ao amor mais profundo. Peguei desvios guiados pelo livro :Mulheres que correm com lobos:, assim meu self selvagem transbordou, nesse estado de espírito; com a expressão da alma consegui fazer magia e exprimir sons, a cantar, a usar a voz da alma. Nossa alcateia estava unida cantando, chorando, rindo, dormindo ao som de Love. Somos todes love.
“Quando somos atraídas para aventuras sobre as quais sabemos muito pouco, isso cria vida e desenvolve a alma.” (p.400). Todos acham que enlouquecemos, é essa a impressão que fica no ar. “Rejeitadas nunca desistem”, há possibilidades sim, há esperança. Somos exiladas, como escreveu Estés, cometemos erros, e mais erros, arriscamos tudo. Aprendemos “pelo método de ensaio e erro” (p. 217), como os lobos estamos juntando todos os indícios das pistas que perdemos que pudermos farejar/encontrar. Olhando pro passado para compreender melhor o presente, recolhendo indícios, estamos fazendo tudo para recuperar, sentir, apreender, criar e rasgar, provando de tudo um pouco, até ter processado essas milhares de informações e estar aqui escrevendo isso, entrei em contato com a vida que mais valorizo.
O arquétipo da mulher selvagem, La loba, “não tem idade, é atemporal”, segundo Estés. Não importa a cor, nem idade, se menino, menina, menina...
Seu jeito fascina, há resistência no olhar. Então, pegue um desvio e chegue até a mim.
Por mais que queiram nos matar em silêncio... RESISTA, PERSISTA... ao sommmmm do amor.
La loba, ela nos olha de frente, com olhos brilhantes e profundos. Expressão tranquila.
La Loba - por Broken e Jimenes – está em primeiro contato com tinta pincel e tela. Em que meio ao caos, um livro nos fez ter esperança que se propagou e se materializou em uma pintura que nos dá amor e paz sempre que a contemplamos. E nós faz lembrar que a arte é visceral, não racional...
A sensação de acolhimento e entendimento transbordou e se tornou la loba. Como os lobos corremos, resistimos e persistimos.
"UMA HISTÓRIA É UM MEDICAMENTO QUE FORTIFICA E RECUPERA O INDIVÍDUO E A COMUNIDADE."
Tatiana Jimenes
Broken Ink
09.09.23